
fotos: United International Pictures
Joel Schumacher acabou com muitos dos meus sonhos adolescentes. Vários daqueles maravilhosos filmes de sessão da tarde para adolescentes que eu geralmente via de madrugada (porque além de ser uma criatura notívaga eu estudava à tarde) tiveram o encanto quebrado com O Fantasma da Ópera(The Phantom of the Opera). Para falar a verdade não foram todos, porque a maioria daqueles filmes maravilhosos era de John Hughes.
O encanto do belo O primeiro ano do resto de nossas vidas (St. Elmo's Fire) e do encantador Os garotos perdidos (The lost boys). Por que ele tinha que dirigir O Fantasma da Ópera de Andrew Llyod Webber? A culpa é minha, eu deveria ter visto mais filmes de Schumacher e não pulado anos e anos de outros filmes e ido direto para esse.
Acho que sou uma pessoa antiquada: para mim musical é aquela coisa de Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly, Leslie Caron e a mulher com as pernas mais lindas do cinema, Cyd Charisse. As pessoas dançam, cantam, dançam mais, cantar mais um pouco. Parei nos anos quarenta e cinqüênta. Moulin Rouge! foi para mim uma experiência traumática que se resumiu a "um longo e frenético video-clip". Mas nos casos de video-clip o "frenético" pode ser suprimido. Podia viver sem aquilo. Mesmo assim me arrisquei a ver Chicago. Bingo! Divertido, leve, despretensioso e cumpre seu papel de entretenimento e é até um pouquinho a mais do que eu esperava.
O Fantasma da Ópera é um drama, baseado numa peça musical que por sua vez foi baseado na obra homônima de Gaston Leroux (e que pode ser lido no Projeto Gutenberg). Do livro até o musical muita coisa foi mudada; do musical para o filme eu acho que bem pouco. Na hora de transpor a peça para o cinema Schumacher esqueceu que cinema tem uma linguagem diferente e deixou o filme com cara de musical filmado. Belo, mas cansativo; bem filmado mas sem muitos atrativos para quem esperava encontrar cinema (eu). Linguagens diferentes merecem uma adaptação, porque por melhor que fosse o musical nos palcos não é possível mostrar apenas aquilo na tela.
O filme cansa e muito. A movimentação de câmera é a esperada e nada mais. Não há balés cinematográficos com a câmera, não há virtuosismo e há música demais. Ou de menos se eu for falar da música mesmo. As músicas no filme são poucas, as letras variam e depois de umas três vezes você só consegue pensar que aquela música era muito bonita, até ele tocar pela segunda vez. Depois disso eu implorava por alguns momentos de diálogo. Eu sou uma chata eu sei, mas cansou e não fui só eu que achei isso. Há também algumas músicas quase chatas ao longo do filme e aqui não entro no mérito das letras, isso não discutirei, porém o "anjo da música" cansou minha beleza depois de uma hora de filme (o filme tem mais de duas).
No palco deve ser lindo; na tela não funcionou muito bem. É preciso gostar muito de musical para adorar o filme. Acho que a culpa foi de Lloyd Webber, que participou de algumas partes da direção e do roteiro, com medo de desvirtuarem seu bebê querido. Aliás, para quem gosta e musical e gostou do filme pode aguardar: uma nova montagem de O Fantasma da Ópera vai estrear nos palcos daqui em breve.
Identifiquei logo o filme com Os guarda-chuvas do amor (Les Parapluies de Cherbourg) de Jacques Demy - lindo, mas chato. Chato porque ao longo do filme há uma música ao fundo (e parece não variar) e por cima dela os personagens cantam ou recitam tudo o que dizem. Sim tudo - todos os diálogos e falas são canções. No entanto vale à pena ver. É uma experiência única, o filme é um clássico, a cenografia é primorosa, o figurino bem desenhado, a fotografia é bem trabalhada e uma hora e meia de filme e canções são suportáveis. Se não viu veja.
O mérito da adaptação de O Fantasma fica por conta da parte técnica: figurino, cenografia, fotografia e coreografias. A cenografia é impecável, como se espera de uma superprodução, os figurinos são lindos e a fotografia cumpre bem seu papel, nada extraordinário. Poderiam ter carregado mais na fotografia, elaborado mais para dar um tom ainda mais dramático, só que a escolha do destaque ficou na música. A coreografia das danças e movimentação nas canções consegue expressar visualmente a música e diverte.
A atriz principal, Emmy Rossum que faz Christine, encanta pela beleza e desenvoltura no papel; Gerard Butler virou o fantasma canastrão; Patrick Wilson faz o herói Raoul precisa de mais sal e a óltima pessoa que eu esperava ver por lá Miranda Richardson (Madame Giry) não consegue mostrar todo seu talento. Música demais, expressão de menos, essa foi minha impressão do filme. Não me arrependo de ter visto, só que não o veria novamente. Interessante, bonito, divertido, mas cansativo. Ainda fico com a versão do livro para as telas de 1943.
Obs.: cuidado com as músicas - elas grudam. Você vai se pegar cantando ou pensando nelas por um bom tempo depois do filme.